Às vezes, quando estou estressada, costumo escrever. Pego minha agenda ou um caderno e começo um registro do que, naquele momento, sou capaz de jurar que um dia vai se transformar em um livro ou ao menos um diário. No outro dia, passada a raiva, esqueci tudo: agenda, caderno, bloco de papel, anotações... até mesmo o que me provocou a vontade de escrever. Engraçado é mesmo quando resolvo arrumar meus guardados. Aí são horas intermináveis imersa na leitura dessas anotações, o que me provoca sentimentos e emoções diferentes e até engraçados. Mistura de alegria, espanto, raiva, saudade, tristeza, autopiedade, determinação... muitas vezes até admiração por ter escrito alguma coisa e de alguma forma que nem imaginava ser capaz de escrever.
O que encontrei numa pequena caderneta com data de quatro anos atrás, por exemplo, faz com que me dê conta das muitas promessas não cumpridas e... bem, já que comecei, não vou omitir nada... das lições que tenho aprendido, mas que preciso rever para continuar a vida. Eis o texto: "Abusei: há três dias não como arroz integral nem saladinha. Hoje a sopa da escola estava um pouco calórica, comi bastante. Bebi refrigerante ontem, comi angu à noite, pão e pizza. Mas vou voltar ao pique anterior porque quero VIVER BEM. Apesar dos invejosos e egoístas, daqueles que querem se dar bem, mas não conseguem puxar o bonde da felicidade sem ter um burro de carga para explorar! Estou muito zangada com a P. (sic). Filhos, onde estão? Cada um quer ver o seu lado, mas o pior é quando acham que sou obrigada a serví-los. Meu tempo agora é outro: é o meu tempo! Cada um, que fez as próprias escolhas, deve arcar com os ônus das mesmas.
Não quero e não tenho como fazer mais sacrifícios, ainda mais quando ficam comparando a atenção que recebem de mim em relação à de outros ou à que dispensam aos outros. Pior ainda quando enxergam apenas o que é conveniente a si próprio, sem levar em consideração a minha capacidade e limitação. Ninguém vive só, eu sei. Mas o preço que pagamos para (con)viver é muito elevado.
Hoje tenho que fazer faxina! "
Só quero dizer que não tenho certeza a respeito de quem seja P. E também não me recordo o motivo dessa lamentação. Resgato apenas duas certezas. A primeira é que a indisciplina com alimentação, tão importante para que eu tenha melhor qualidade de vida, ainda é uma de minhas grandes dificuldades. A segunda é que realmente "ninguém vive só, mas o preço que pagamos para conviver é muito elevado!"